
Por: Tarcísio Vanderlinde
De acordo com anotações literárias da Bíblia de Jerusalém, o livro Eclesiástico, diferente do Eclesiastes, faz parte da versão grega, mas não figura no cânon judaico. É um dos livros deuterocanônicos admitidos no âmbito do cristianismo.
Jerônimo, um dos tradutores da Bíblia, conheceu o texto no original e os rabinos o citaram. Fragmentos do escrito foram encontrados nas famosas cavernas de Qumran, às margens do Mar Morto, junto a outros textos bíblicos e literários.
Segundo a paleografia, o texto já era utilizado em comunidades cristãs primitivas. O autor conhecido como Ben Sirac aparece citado no livro. O texto consta numa lista de livros considerados apócrifos, ou seja, de origem suspeita ou duvidosa. Mas não é bem assim.
Martinho Lutero refletiu sobre uma lista de livros que faziam parte da Bíblia e que os eruditos consideravam ter pouca autenticidade. Apesar de não os considerar inspirados, o reformador não deixou de recomendar a leitura destes livros, pois via neles muitos ensinamentos práticos para a vida.
O texto de Ben Sirac revela um autor atento ao que acontecia no cotidiano e que procurou tirar dali lições que permitissem aos seus leitores uma vida sustentável e equilibrada. Ao se debruçar sobre o texto, o leitor do século XXI se surpreenderá com sugestões que ultrapassaram mais de dois milênios e continuam presentes em compêndios jurídicos ou no linguajar popular.
O espírito do Estatuto do Idoso, por exemplo, aparece no Eclesiástico nas recomendações dadas aos filhos sobre o cuidado com os pais: “Filho, cuida de teu pai na velhice, não o desgostes em vida. Mesmo se a sua inteligência falhar, sê indulgente com ele, não o menosprezes, tu que estás em pleno vigor”.
O ditado popular, “o peixe morre pela boca”, aparece no texto na seguinte forma: “Sê pronto para escutar, mas lento para dizer a resposta. Se sabes algo responde a teu próximo; se não, põe a tua mão sobre a boca. Honra e confusão acompanham o falador e a língua do homem é a sua ruína”. Uma paráfrase do provérbio aparece também no texto canônico do apóstolo Tiago.
Entre outros assuntos, o escrito apresenta, por exemplo, diversas instruções sobre amizade: “Um amigo fiel é um poderoso refúgio, o que o descobriu, descobriu um tesouro”. Alerta, contudo, sobre falsas amizades, ou amizades de conveniência. Uma das citações cabe na medida em um mundo pós-moderno de amizades sustentadas por deletes, fakes e outras artimanhas digitais: “Sejam numerosas as tuas relações, mas os teus conselheiros, um entre mil”.

Imagem: Ben Sirac numa reconstrução por IA a partir da temática do Eclesiástico
Tarcísio Vanderlinde é escritor