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O que você faz com o que defende?

Por: Joni Lang
21/10/2026 às 17h03
O que você faz com o que defende?
Foto: Arquivo pessoal

Por: Mariana Rodrigues

 

Estamos vivendo uma época em que demonstrar indignação parece ter se tornado uma das principais formas de participação social. Nunca tivemos tantas opiniões, tantas certezas e tantas pessoas dispostas a explicar o que está errado no mundo. Mas tenho pensado em uma questão: quanto dessa energia se transforma em alguma contribuição concreta?

Nesta semana, ouvi um episódio do podcast Café Brasil, de Luciano Pires, chamado “Você opina ou constrói?”. Nele, Luciano propõe uma reflexão sobre a diferença entre quem dedica sua energia a comentar a realidade e quem procura agir sobre ela.

A provocação me fez pensar no momento político que estamos vivendo e, principalmente, na maneira como nossas convicções passaram a interferir nas relações humanas.

As redes sociais se transformaram em arenas de convencimento. Cada acontecimento exige uma manifestação pública, cada divergência provoca uma disputa e, muitas vezes, discordar de alguém parece suficiente para colocar seu caráter em julgamento.

É curioso observar como a política passou a determinar tantas relações. Para algumas pessoas, saber em quem alguém vota parece suficiente para definir sua inteligência, seus valores e até sua capacidade de ser uma boa pessoa. Como se toda a complexidade de um ser humano pudesse ser resumida ao nome que ele escolhe na urna.

Evidentemente, nossas escolhas políticas têm consequências. Elas expressam visões de mundo, revelam prioridades e podem afetar profundamente a vida de outras pessoas. Mas será que escolher um lado nos transforma automaticamente em participantes ativos da construção de uma sociedade melhor?

Votar é construir. Mas construir um país não termina na urna.

Defender a educação é importante. Mas o que fazemos para melhorar o ensino? Falar sobre justiça social é legítimo. Mas como contribuímos para diminuir as desigualdades ao nosso redor? Cobrar honestidade dos governantes é indispensável. Mas como reagimos quando surge uma oportunidade de levar alguma vantagem indevida?

E quando exigimos respeito, conseguimos oferecê-lo a alguém que pensa de maneira diferente?

Existe uma distância considerável entre aquilo que defendemos publicamente e aquilo que praticamos individualmente. E é justamente nessa distância que nossas convicções encontram seu maior teste.

No episódio, Luciano menciona o conceito de locus de controle, desenvolvido pelo psicólogo Julian Rotter, que trata da maneira como percebemos nossa capacidade de influenciar os acontecimentos. Algumas pessoas acreditam que suas ações podem produzir mudanças; outras atribuem os resultados principalmente às circunstâncias externas.

Isso não significa ignorar problemas estruturais, desigualdades ou responsabilidades do poder público. Significa reconhecer que, mesmo diante de realidades que não controlamos inteiramente, existe uma parcela de responsabilidade que nos pertence.

E estamos dedicando tempo demais a identificar o que os outros deveriam fazer e tempo de menos a examinar aquilo que está ao nosso alcance.

Não considero manifestações, debates ou críticas atividades inúteis. Muitas conquistas sociais nasceram justamente da indignação de pessoas que se recusaram a aceitar determinadas realidades. A crítica pode ser o primeiro passo de uma transformação. O problema começa quando confundimos indignação com realização e acreditamos que demonstrar nossas convicções já representa uma contribuição suficiente.

Construir também é participar da comunidade, apoiar iniciativas sociais, fiscalizar o poder público, exercer a profissão com responsabilidade, cumprir compromissos e preservar relações que não precisam ser destruídas por divergências.

E aqui chegamos a uma questão que considero especialmente importante: de que adianta defender publicamente uma sociedade mais humana se, nas relações mais próximas, somos incapazes de reconhecer a humanidade de quem discorda de nós?

Não precisamos concordar com tudo, relativizar princípios ou manter relações que nos fazem mal. Mas também não precisamos transformar cada discordância em uma sentença definitiva sobre o caráter do outro.

Tenho a impressão de que estamos tão ocupados defendendo o país que queremos que, às vezes, esquecemos de praticar os valores que exigimos dele.

Queremos transformar a sociedade, mas nem sempre estamos dispostos a rever nossos próprios comportamentos. Exigimos coerência dos governantes, das instituições e das pessoas ao nosso redor, mas encontramos justificativas bastante generosas para nossas próprias contradições.

A política é importante demais para ser reduzida a uma disputa permanente entre certos e errados, bons e maus. E as relações humanas são complexas demais para caberem em classificações tão estreitas.

Um país também é construído nas pequenas decisões cotidianas, na maneira como convivemos, trabalhamos, educamos, discordamos e tratamos aqueles que não compartilham nossas certezas.

Por isso, antes de publicar mais uma indignação, condenar mais uma escolha ou apontar outro culpado, vale fazer uma pergunta menos confortável:

O que estou fazendo para melhorar aquilo que tanto critico?

Porque o Brasil que queremos não será construído apenas pelo candidato que vencer uma eleição. Será construído, ou prejudicado, também pelas escolhas que fazemos quando não há uma urna diante de nós.

E você, tem opinado ou construído?

 

Texto livremente inspirado no episódio 1034 do podcast Café Brasil, “Você opina ou constrói?”, de Luciano Pires. Ouça e conheça o conteúdo original.

 

 

Mariana Rodrigues é psicanalista e escritora

 

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